Elizabeth Mendes de Oliveira, ou simplesmente Bete Mendes, nasceu em Santos, no dia 11 de maio de 1949. Atriz e militante política, foi casada com ator e diretor Denis Carvalho. Filha de um suboficial da Aeronáutica e de Maria Mendes de Oliveira, formou-se em Artes Cênicas pela USP, e não concluindo o curso de Sociologia, época em que envolveu-se num dos movimentos de esquerda, em resistência à ditadura. Apresentou-se pela primeira vez no teatro em 1968, na peça "A Cozinha".

Em 1970 foi presa a primeira vez, pelo DOI-CODI (Departamento de Operações Internas - Centro de Operações para Defesa Interna, órgão encarregado, durante o regime militar, de proceder o combate aos grupos de esquerda), ficando quatro dias detida. Entre setembro e outubro foi novamente presa, ocasião em que sofreu torturas. Absolvida pelo Superior Tribunal Militar, foi solta após trinta dias no cárcere - mas abandonou o curso de Sociologia. Participou ativamente de diversos movimentos sociais e de classe, como a regulamentação profissional de artistas e técnicos em espetáculos de diversões (conquistada em 1978), apoio às greves dos Metalúrgicos do ABC paulista e o movimento pela Anistia.

Ao largo da carreira artística, voltada principalmente para a televisão, Bete Mendes foi uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores, com o qual elegeu-se deputada federal a primeira vez, na legislatura 1983-87. Foi, porém, expulsa do partido por haver votado, ainda do regime de eleições indiretas, no Presidente Tancredo Neves. Elegeu-se novamente, desta feita como Constituinte, para a legislatura seguinte (1987-1991), pelo PMDB. Em setembro de 2007 foi homenageada na cidade natal, tendo seu nome na "calçada da fama" local, ao lado de Pelé e do compositor Gilberto Mendes.

Quando exercia o seu segundo mandato, sendo presidente José Sarney, Bete Mendes integrou a comitiva presidencial em visita oficial ao Uruguai. No dia 17 de agosto de 1985 Bete encontrou ali, como adido militar da embaixada brasileira em Montevidéu, o militar Carlos Alberto Brilhante Ustra, em quem afirmou reconhecer aquele que teria sido seu torturador quando esteve presa. O episódio ganhou ampla repercussão no país, reacendendo os debates sobre a amplitude da Lei da anistia assinada em 1979 - e se a anistia atingiria os militares envolvidos em crimes de tortura. Ustra não foi acusado, mas a sua carreira foi interrompida. Em resposta ao caso, até então omitido em seu currículo, o militar fez publicar um livro, intitulado "Rompendo o Silêncio", onde refuta as acusações e nega que a atriz tenha sofrido qualquer tipo de tortura, acusando-a de ter montado um "teatro" para promover sua reeleição.

26/05/2013 - O relato tocante de Bete Mendes sobre a tortura
Fui presa duas vezes. Na primeira, não fui torturada fisicamente. Na segunda, foi total. Fui torturada [em 1970] e denunciei [o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra]. Isso me marcou profundamente. Não desejo isso para ninguém - nem para meus inimigos. A tortura física é a pior perversidade da raça humana; a psicológica, idem. Não dá para ter raiva [de quem me torturou]. A gente é tão humilhado, seviciado, vilipendiado que o que se quer é sobreviver e bem. Estou muito feliz, sobrevivi e bem. E não quero mais falar desse assunto. Superei isso com tratamento psicológico e com trabalho. Agradeço à família, à classe artística, aos amigos que foram meu alicerce.

Carlos Zara me convidou para fazer a novela "O Meu Pé de Laranja Lima", e isso me salvou. Continuei o trabalho artístico, fui fundadora do PT, fui deputada federal duas vezes e secretária da Cultura de São Paulo. Comecei a fazer teatro e cantar com seis anos de idade. Com oito já participava de manifestações de alunos. Era do grêmio do colégio, depois fui para o diretório da faculdade. Em bibliotecas públicas ou pegando livros emprestados lia tudo: Rousseau, Marx, Mao, Lênin, Gorki, Aristóteles. Depois, adotei o codinome de Rosa em homenagem a Rosa Luxemburgo.

Na adolescência escrevi textos de peças de teatro. Quando fui presa, eles levaram esses textos. Achavam que eles eram prova de crime, que depunham contra mim. Nunca mais os recuperei. Era coisa tão pouca, boba, pessoal. Quando fecharam as portas à democracia, me senti usurpada, revoltada, aprisionada. Achei que a única saída era entrar numa organização revolucionária contra a ditadura militar. Entrei na VAR-Palmares. Fizemos aquela opção. Foi certa, errada? É difícil julgar hoje. A minha visão era a revolução socialista: tirar poder dos militares, dos opressores, do capitalismo selvagem. Deixar a gente governar para o bem de todos, com todos participando.

Eu tinha 18, 19 anos, e achava que podia fazer tudo. Não tinha consciência do risco imenso que estava correndo. Era atriz de uma novela que explodia no Brasil, "Beto Rockfeller", estudava ciências sociais na Universidade de São Paulo e participava de uma organização clandestina revolucionária. Aí deu zebra. O medo era a pior coisa que a gente sentia na época. Historicamente tem que se reconhecer que nós entramos numa ditadura muito mais pesada do que foi dito no passado. Isso vai sendo desdito atualmente pela Comissão da Verdade. Hoje não tenho medo de retrocesso, mas é preciso prestar atenção em manifestações como de movimentos nazistas em vários países e no Brasil. Por exemplo? O coronel Brilhante Ustra faz parte desse movimento. Ele tem um site. Há jovens fazendo movimento nazista.

É um receio. É preciso ser cauteloso em relação a movimentos que podem ser prejudiciais ao avanço democrático. Mas impedir jamais, porque a gente legitima a manifestação de todos, de opiniões diversas. É preciso cuidar da democracia para que esses movimentos não cresçam. Sou política como qualquer cidadão. Sou cidadã, atriz, socialista. O socialismo se constrói todo dia. Não temos o modelo socialista do passado, mas a gente constrói um novo. Quero continuar trabalhando como atriz e viajar mais. Poder viver essa democracia até morrer. Sonho político? Que o trabalho escravo acabe no Brasil. Estou aqui viva e feliz. Minha vida é muito efervescente. Emendei três trabalhos na televisão. Faço o que eu gosto: ser atriz. Não vamos ficar presos no passado. O que eu tinha que dizer disse com todas as letras na época. "Revival" não tem sentido. Meu assunto hoje é [a novela] "Flor do Caribe". Problema de audição? Tenho. É que eu fui torturada.

Veja outra foto de Bete Mendes


Teledramaturgia
1966: Águias de fogo
1968: Beto Rockfeller .... Renata
1969: Super plá .... Titina
1970: O meu pé de laranja lima .... Godóia
1970: Simplesmente Maria .... Angélica
1971: Nossa filha Gabriela .... Catarina
1972: A revolta dos anjos .... Stela
1972: Na idade do lobo .... Carina
1973: A volta de Beto Rockfeller .... Renata
1973: Divinas & maravilhosas .... Carolina
1974: O rebu .... Sílvia
1975: Bravo! .... Lia di Lorenzo
1976: O casarão .... Vânia
1977: Sinhazinha Flô .... Flor
1978: Sinal de alerta .... Vera
1980: Dulcinéa vai à guerra .... Jerusa
1980: Pé de vento .... Terezinha
1981: Floradas na serra .... Elza
1985: De quina pra Lua .... Patrícia
1985: O tempo e o vento (minissérie) .... Maria Valéria Terra
1989: Tieta .... Aída
1990: Lua cheia de amor .... Emília
1992: Anos rebeldes (minissérie) .... Carmem Damaceno
1993: O mapa da mina .... Carmem Rocha
1994: Memorial de Maria Moura (minissérie) .... mãe de Maria Moura
1994: Pátria minha .... Zuleica
1994: Quatro por quatro .... Fatima
1996: O rei do gado .... Donana
1998: Brida .... Diva
1999: Terra Nostra .... Ana Esplendore (mãe de Giuliana)
2000: Aquarela do Brasil (minissérie) .... Olga
2003: A casa das sete mulheres (minissérie) .... Dona Ana Joaquina
2004: Seus olhos .... Edite
2005: América .... Fátima
2006: Páginas da vida ....irmã Natércia
2007: Sítio do Picapau Amarelo ... Dona Benta
2008: Casos e Acasos, O Colchão, a Mala e a Balada .... Hilda
2008: Casos e Acasos, O Parto, o Batom e o Passaporte
2009: Caras e Bocas .... Piedade Batista
2011: Insensato Coração .... Zuleica Alencar
2012: Gabriela .... Florzinha Reis
2013: Flor do Caribe .... Olívia


A

B

C

D

E

F

G

H

I

J

K

L

M

N

O

P

R

S

T

U

V

WZ

 
 
 
 
        Bete Mendes        
• fechar janela •